sábado, 16 de fevereiro de 2008

MORREU MEU PAI - PEIXE GRANDE E SUAS HISTÓRIAS

Sempre ouvi falar da história de Macunaíma – Um herói sem caráter.
E é pedindo licença ao modernista Mário de Andrade, que me aproprio desse subtítulo para fazer uma necropsia de meu pai.


Ainda hei de entender o que se passou pela cabeça de um casal do interior rural de São Paulo, batizar um de seus 7 filhos com o nome de um teatrólogo grego. Ele como todos da família, acabou tendo seu pré-nome substituído pelo sobrenome: Fleury

Nascido em 1930, em Platina – uma cidade que de tão pequena, nem justifica gastar tinta para que conste em alguns mapas do estado de São Paulo – teve uma infância simples e uma criação formidável, regida pela orientação de Oscar e Gabriela. Avós de quem tenho tanta saudade.

Vô Oscar foi – e para mim, continua permeando minha cabeça infantil, a saudade e imagem de um super-herói. Um gigante com a candura de uma criança. Vó Belinha, a devoção em pessoa, emanando energia, tão aguerrida que era, não fazia jus a sua pouca estatura.

Nenhuma dessas características marcantes foi herdada pelo meu pai. Desde cedo, ele estava preocupado demais na pressa de viver a vida, para se aperceber de algo tão valioso e abundantemente disponível de seus ascendentes.

Viveu a etílica boemia histórica e cultural do país. Alguns dizem que esse foi seu maior defeito: álcool.Insisto em achar simplório e cômoda tal justificativa, pois, tantos amigos que tiveram o mesmo combustível para acompanhá-lo nessas aventuras, não deixaram de ser maridos, pais, irmãos, e outros importantes papéis sociais que devem ser cumpridos com retidão.

A ele, não lhe faltaram oportunidades.Excelentes empregos.Uma esposa, linda que dedicou parte de sua juventude na esperança de que ele encontrasse um rumo que o fizesse triunfar como homem.

Dois filhos que – até que o discernimento nos alcançasse, tínhamos orgulho dele.

Oscar, meu irmão, ainda acreditou e investiu nele, mais tempo do que eu julguei necessário, e por isso, sofreu mais.
Eu, tentei o quanto pude, mas minha tolerância foi menor, à medida que, me cansava de dar piruetas para chamar a atenção de meu pai, afim de que ele tivesse orgulho ou alegria em me ver. Sem sucesso. Resolvi tomar outros rumos. O de não vê-lo como pai, para que a omissão de seus compromissos paternais não me revoltasse. Tentei vê-lo, como um amigo. Daqueles que ligamos, vez em quando para saber se está bem de saúde, rir de novas piadas, fingir desconhecer as que já tinha rido e novamente, me fascinar com suas histórias, que valeriam um livro, ainda que ficassem encalhados nas prateleiras.


Muito do que se fala de meu pai se confunde entre o real e o folclórico e, era assim que ele gostava de ser.
Dotado de uma inteligência - ímpar e mal aproveitada – uma memória privilegiada e um humor causticantemente aguçado, era muitas vezes o centro das atenções, quando destilava a narrativa de suas histórias fantasiosas ou não.
Depois de um ano com a saúde instável, internações hospitalares, eu percebi que a vida de meu pai estava acabando, e – pela maneira que levou sua vida – estava no lucro, por ainda se manter em pé. Vivo.

Previ, aos que se importavam, que ele não deveria chegar a ver a entrada de um ano novo. Mais um para tantos 76 que já tinha vivido.

Começava a noite de sábado, 16 de setembro. Eu tentava descansar de mais um dia chato de trabalho. Toca o telefone. Uma mulher que não conheço - e nem faria questão de conhecer - me liga para dizer que aconteceu um acidente com meu pai. Logo penso nos trotes contemporâneos, que servem para sondar dados que se voltarão contra nós, nos deixando reféns de formas criminosas de extorsão. Até que ela sentencia, com cerca de 6 horas de atraso: “seu pai morreu”, confirmo que não era mentira, quando ouço a voz da segunda esposa de meu pai, ao lado.

Foi tudo muito confuso. Não sei se chorei de susto, saudade ou do medo de não cumprir a contento, o rigor da burocracia a qual eu seria submetido para transladar seu corpo para São Paulo, atendendo ao seu último desejo de ser enterrado junto aos outros Fleurys. Eu era o elo consangüíneo mais próximo, de um raio de 460 km.

Como sua morte, ainda que previsível, foi súbita e no meio da rua, tive de ir ao IML para reconhecer seu corpo. Lá, num ambiente fétido, veio um corpo retalhado, pálido, coberto pela metade, com um lençol branco.
Sim.
Era ele.

Meu único pedido foi para que, no preparo do corpo para o translado, sua barba fosse feita, pois era o único sinal de vaidade que tinha, desde que fui apresentado a ele, há 37 anos, e pela incompetência que ele sempre denunciava nos outros, não fomos atendidos.Na Dutra, acompanhado pela minha mãe, lembrei do tempo em que éramos 4, e que ainda achávamos tanta graça nas coisas. Vivíamos nessa ponte rodoviária – Rio x São Paulo x Rio, no fusca dirigido com muita perícia, pelo meu pai. Chorei de novo, por achar covarde e cruel ter de voltar tão longe na memória (cerca de 30 anos), para ter uma grata lembrança afetiva da família que tive.

Penso que a vida é como uma corda, em que numa ponta ascendente, tenho meu pai, e na outra, meu filho. Hoje, já não estou mais no meio dessa, pois uma parte da corta se rompeu. Vou aproveitar os ensinamentos dos erros de meu pai, para cometer os mínimos e inéditos erros na criação do meu filho, pois sou falível, mas não sou burro.

No velório, deposito uma medalha do eterno guerreiro S. Judas, para que o acompanhe. Beijo a ponta de meus dedos e repasso esse beijo para a sua testa fria como uma pedra de mármore. Coloco uma rosa vermelha para dar uma cor entre as flores pálidas que se confundiam com o tom de sua pele.

Vejo dois de seus parceiros de noitadas com suas respectivas esposas. Foram prestar homenagem. Seus corpos estão pesados e lerdos pela ação do tempo. O semblante da conformidade pela perda de mais um amigo. Rotina comum a essa faixa etária. Percebo que a amizade realmente é algo incrível. Depois de tantos anos e tantas histórias, eles vieram.

Seus irmãos, cunhados e sobrinhos, se despiram de suas mágoas de não terem sido atendidos enquanto tentavam salvá-lo dessa roda-viva que ele criou em torno de si, também vieram.

Agradeço ao meu tio Raul, que deflagrou há alguns anos a última tentativa de resgatar meu pai de sua vida suicida. Sem sucesso, e com o pragmatismo de sempre, voltou ao seu dia-dia, no interior de São Paulo.

Ao caçula, de quem meu pai sempre foi mais próximo e se referia como o leal parceiro que teve, desde as brincadeiras de infância. Passional, não desistiu e sempre mostrou-se preocupado com as atitudes e saúde do meu pai. Obrigado tio Gil, por acreditar até o fim, naquele, em quem nem meu pai acreditou.

Ao meu primo Eduardo, que desceu de seu gigantismo ao mostrar o quão emocionado estava com tudo que estava acontecendo.

Ao meu primo Maurício, que provido de uma educação familiar invejável e maturidade que não condiz com o fato de ser um dos mais novos da trupe, por sempre perguntar – via internet – pelo meu pai e tentar amainar minha revolta de ser órfão de um pai, ainda vivo.

Ao seu irmão, Marcelo, que ajudou nos trâmites burocráticos.

Ao meu tão amado filho, a quem me desculpo por não ter lhe dado à sorte de ter um avô paterno como tive e nem tempo de apresentá-lo.

Em especial, ao meu irmão e minha mãe que, ainda que briguemos e continuaremos brigando, me resgataram a sensação prazerosa de ter uma família.

Ao meu pai, agradeço por ter me ensinado a ouvir jazz. Pelo privilégio de ouvir suas histórias. E por ter me dado a vida.



E à vida – que na ausência do meu pai, muitas vezes me ensinou a ter um pouco de discernimento de quais passos de meu pai, devo seguir. São poucos, eu sei, mas o arquétipo da palavra “pai” vai ainda me fazer um dia, ter saudades dele.


20/09/06

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