Era segunda, 15 do corrente, quando desembarca da ponte aérea no Santos Dumont, Zé Alberto Rei – o Jacaré.Traficante violento, renomado e procurado, transitava livremente, garantido pelo salvo conduto subscrito pela impunidade.
Tinha duas paixões, além de sua atividade labutar: mulheres, dando preferência para aquelas que ainda julgam terem facilidades na vida, e pássaros, firmando-se grande criador de canários belgas de plumagem parda – uma raridade.
Tão logo, dispensado de seus compromissos profissionais, razão de sua vinda para o estado, uma breve parada nas casas noturnas da Praça Mauá, a poucos metros daqueles que tentavam descobrir, quase mediunicamente, seu paradeiro.
Lá, conheceu Sarah Lee, uma prostituta de origem nipo-judaica conhecida por seu temperamento cáustico com rajadas de ciúmes ao cair da tarde.
Envolvidos pelo culposo amor bandido (ou seria doloso?), perceberam afinidades, como se amigos de infância fossem, ou tivessem.
Ele a levou para o quarto do módico hotel em que estava hospedado na Praça da República, próximo ao ponto zero – não me referindo aos meridianos geográficos. No quarto, paredes pintadas com borrões de mofo, um jogo composto de cama de solteiro e uma mesinha de cabeceira contendo um novo testamento jamais aberto. Havia também, um roupeiro de duas portas e poucas gavetas com a única serventia de alimentar uma colônia de cupins. Em cima, esperando por ele, seu inseparável canário campeão de exposições, de canto e plumagem. Chamava-se Leandro e estava treinando seu canto para as competições futuras e internacionais.
Na manhã seguinte, ao acordar, Jacaré pediu para sua recente conquista, apresenta-lo àquele que foi a sensação do verão nacional: o Piscinão da Praia de Ramos.
O dia parecia perfeito. O Sol, escaldante, ainda que longe do verão. O poder público havia lhe dado uma trégüa, pois a prioridade do governo era a entrada da TIM (Telecom Itália Móbile) nos meios da telecomunicação e seus encargos que forrariam os cofres públicos, ao invés de se preocupar com a saída intempestiva do jornalista TIM, dos meios da comunicação.
*Em tempo,(e fora da realidade), as autoridades desmentiam a existência de um poder paralelo, enquanto exumavam ossadas de cidadãos menos afortunados, contribuintes sem importância, calcinados no ostracismo, sepultados no cume do morro.
Para que pudesse passar o dia despreocupado, decidiu que Leandro ficaria no hotel.
Não seria prudente expô-lo à uma cidade tão violenta. Para isso, renovou a água de seu bebedouro. Jacaré não percebendo, deixou – acidentalmente – uma das maiores pedras de diamante de seu anel cair junto ao farelo servido para alimentar Leandro durante sua ausência.
A Praia de Ramos parecia o Éden. Havia pagode, futebol, churrasco e mulatas bem servidas, o que causou cólera em sua parceira. Chegou a cogitar se era merecedor de tamanha graça, quando foi interrompido por uma nega - Bredgith Bardout (de origem franco-afro-anglo-saxônica) que, além de chamar sua atenção, chamou-o também, para longe dos olhos atentos de sua parceira, Sarah.
Deu algumas braçadas em direção ao outro extremo da piscina artificial, porém, não percebeu que Sarah já o esperava do outro lado da margem com uma faca japonesa e serrilhada de cortar carne, não importando se humana. Deu-lhe três estocadas nas costas e acabou morrendo, não se sabe se, pelo ataque, ou afogamento na tintura de seu sangue que se derramou pela água.Em rio de piranha, Jacaré deveria ter nadado de costas. ... mas não o fez.
Noutro canto da cidade, Leandro, cansado de seus ensaios de canto e sem saber da morte de seu dono, foi alimentar-se e horas depois de engolir o diamante, morreu entalado com a jóia, após a digestão. Mas isso, já é um outro provérbio.
crônica apresentada em 05/02.

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