terça-feira, 1 de julho de 2008

Pour Louise

Nada como aproveitar uma segunda-feira de folga do serviço, com um sol incrível, para dar uma caminhada na praia.
Ver pessoas. Isso tem sido uma terapia para mim, aproveitando para tentar traçar perfis ou pelo menos imaginá-los, pensando em como torná-los críveis para algumas crônicas urbanas.
Muitas mulheres interessantes. Umas cuidando dos seus corpos. Outras, percebe-se o afã da busca de ter as curvas de uma top model, por mais distante que estejam dessa meta.

... caminho...

Passo por uma criança daquelas que – ao longe – se destaca a carência de educação. Ela rosna para um cão, que retribui sua atitude, com um desprezo ímpar.

... continuo caminhando...

Mais a frente, adolescentes dão aquela esticada pós aula para ficar na azaração.
Bons tempo...

... ainda em meus passos...

Adiante, um velhinho voltando de sua maratona na areia fofa – com uma resistência de causar inveja aos meus 40 anos – migra para o calçadão e retira de dentro de seu tênis uma punhado de areia que, ao despejar, me lembra uma ampulheta.
Tracei uma analogia, como se fosse uma vingança que tinha contra o parco tempo que lhe restava. Desisti pois, com aquela vitalidade, provável que vá muito mais adiante do que eu possa alcançar.
Até porque, nossa finitude não segue uma lógica. Uma coerência.

... continuo...

Um estabanado – em sua bicicleta - quase me atropela, correndo paralelamente à ciclovia, onde deveria estar.

De repente, passo por três mulheres que vinham conversando no sentido contrário ao meu, beirando seus 40 anos.
A que vinha no meio, era bem interessante. Me chamou a atenção, a maneira como ela me olhou, dando pouca importância ao que as outras tagarelavam ao seus ouvidos.
Esboçou um sorriso como se me conhecesse.
Eu, ciente e auto-confiante de toda minha beleza (quase um deus grego esculpido em mármore, saqueado ao longo da história pelos conflitos otomanos e jogado em meio à poeira dos fundos de um museu londrino qualquer) fiz o que era previsível: verifiquei se meu nariz estava sujo, ou se o zíper estava aberto.
Eu estava de short, logo, não tinha zíper.
Check list completo, ...nariz limpo...
- Será que a conheço e não reconheci?
Fui até o final da praia tentando lembrar.

... caminho com essa missão de tentar resgatar em minha memória donde a conheceria ...

Pô. Logo eu que tenho boa memória?!
Disperso quando no mp3 toca uma música que me lembra um relacionamento recente.
(http://br.youtube.com/watch?v=N0ZoX5tb7do)

... chego ao fim da praia. Retorno ...

Quando chego na metade da praia, vejo ao longe que o mesmo trio também retornava de sua caminhada e – novamente – estava para passar por mim.
A mulher do meio, ainda ouvinte do falatório das outras duas, faz sinal para que continuem e vem sutilmente em minha direção.
Pronto: em frações de segundo, teria de descobrir quem era, pois acho uma baita indelicadeza não lembrar das pessoas.

Nada.

Já pensando num plano B de como dissimular como se lembrasse, já estava em cima. Não deu tempo.
Ela me abordou:
- Você é o Fleury, não é?!
Numa cidade pequena como Niterói, isso pode trazer benefícios ou constrangimentos.
Sem graça, respondi que sim.
Antes que me viesse a cabeça qualquer palavra que me deixasse em xeque, ela emendou:
- Te reconheci pela foto do blog.

- ????????????????????????????????????????????

Achei que era alguma sacanagem, pegadinha, câmera indiscreta, qualquer coisa...
Para falar a verdade, nessa hora, nem lembrei que tinha um blog, ou nem mesmo, “o que” seria um blog.
Daí ela contou que temos uma amiga em comum da época da faculdade que havia indicado um texto do blog e que ela gostou muito.
Era o texto que escrevi para meu pai.
Eu não sabia onde enfiar minha cara. Me senti nu. Exposto. Pois nunca tinha sido abordado dessa maneira.
Ela comentou de alguns textos que achou interessante.
Fez alguns comentários mais críticos a respeito de outros textos.
Mas o que mais me impressionou, foi o fato de ter concordado com o texto das Mulheres Helênicas.

Nessa hora, voltei a olhar em volta para me certificar se não tinha nenhuma câmera escondida, daqueles esquetes que servem para constranger qualquer transeunte menos afortunado.
Afinal, justamente o texto em que fui apedrejado até por algumas amigas...
Não satisfeita, ela disse que o texto descreve exatamente o perfil das fúteis-histéricas do seriado Sex and the City que ela tinha assistido recentemente no cinema.
Fique claro que, “fúteis-histéricas” é por minha conta.
Ela foi mais elegante.

Em tempo, não há outro adjetivo para descrever quatro mulheres que, ao longo de anos de seriado, deram pra metade de NY e não encontraram alguém que as satisfizessem.
Já acho complicado conceber a idéia de que uma única pessoa seria capaz de pegar a Sarah Jéssica com aquela verruga-varejeira (que sempre acho que vai sair voando a qualquer momento) na ponta do queixo, como uma dublê de bruxa de trash movie.

Voltando à praia, a essa altura do campeonato, eu não sabia se oferecia autógrafo ou se pedia um à minha fiel leitora (!!!)
Nem me lembro de ter agradecido a atenção. Para falar a verdade, nem sei se é a atitude de praxe, quando se é reconhecido dessa maneira.
Só sei que o nome dela é Louise (espero que seja assim que se escreva) e, caso você – Louise - volte a freqüentar esse blog – MUITO OBRIGADO!

... voltei levitando de minha caminhada.
ERRATA. Corrigindo - o nome se escreve corretamente - Luise (sorry), e obrigado por me corrigir. Continue a freqüentar meu blog. Fique sempre à vontade...

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