
1º Capítulo - O Apartamento
Passava das 23h, quando girei a chave na fechadura de meu apartamento.
Entrei e, de imediato, uma corrente de ar que vinha da janela aberta, tomou a maçaneta de minha mão direita e bateu a porta fazendo o barulho ecoar pelos corredores do prédio.
Merda!, pensei.
Os vizinhos não precisavam participar de minha rotina, muito menos do horário em que estava chegando.
Minha relação com eles sempre foi cuidadosamente calculada, no limite que restringe entre a manutenção de sua privacidade e ser educado. Tinham pouco a me oferecer. Nos raros esbarrões que ocasionalmente aconteciam, principalmente no elevador, na hora de ir para o trabalho, a única pauta que arriscavam eram mambembes previsões meteorológicas que – invariavelmente, ao longo do dia – se mostrariam equivocadas.
Meu apartamento era pequeno. Suíte, sala geminada à uma cozinha americana, separados por uma bancada que servia de mesa de jantar. Também, tinha uma pequena área com uma máquina de lavar que, de tão autônoma, saía para passear, sempre que sua carga excedia aos 6kg descritos no manual. Às vezes, chegava a pensar que ela iria pedir as contas e sair pela porta, procurar os direitos trabalhistas de tantos anos – mal remunerados - lavando, enxaguando e centrifugando.
Dei a sorte de conseguir reverter um minúsculo banheiro de empregada, para um lavabo, afim de que, minhas visitas não tivessem que invadir a privacidade de meu quarto para usar o banheiro.
Por outro lado, tive azar de não ter uma varanda. Queria um mínimo espaço onde pudesse dependurar uma rede para, horizontalmente, ler um bom livro e contemplar uma nesga que me sobrou da visão da mata atlântica, espremida entre dois prédios.
A mobília era somente a necessária para não amontoar o ambiente.
Na sala: sofá, hack para tv e dvd, uma planta da felicidade dada por minha irmã e um computador próximo à janela. Mesa de centro, era um luxo que a logística decorativa não permitia. Quadros e painéis de fotografia (um hobby que desde a adolescência me acompanhava) davam cores e vida na estrutura vertical da planta, sempre à altura de meus olhos.
Cheguei com a boca seca, conseqüente da desidratação que algumas doses de vodka, ingeridas no tradicional happy hour de sexta, com os amigos do trabalho, promoveu em minha garganta. Fui à geladeira pegar uma água gelada e andei até a janela para beber.
A rua em que morava era tranqüila e estreita a ponto de ter a visão do prédio em frente, tão próximo quanto à porta de meu vizinho na outra ponta do corredor. No entanto, aos fins de semana, a rua se transformava numa avenida, ante o fluxo de carros que circulavam, tentando fugir dos engarrafamentos das principais ruas paralelas da badalada zona sul em que morava.
Da janela, ví a mesma a imagem, que de tão estática, lembrava uma fotografia pálida, patética, emoldurada pelo alumínio da esquadria entreaberta para arejar o ambiente, o suficiente para bater a porta, como acabara de acontecer. A minha frente e a mesma altura de meu apartamento, havia um que estava vazio, com uma placa de VENDE-SE já desbotada pelo prazo em que estava fixada, refém da ação de vários sóis e chuvas, que vieram ao longo de 5 meses. Lembrei-me da família que morava nesse imóvel.
Pessoas barulhentas.
Um casal com dois filhos.
Duas pestes.
Crianças que serviriam como eficazes garotos propagandas para campanhas de vasectomia ou qualquer outra forma de controle de natalidade, de tão desagradáveis que eram. As gritarias, brigas e discussões em elevados decibéis, altas horas da madrugada, dava impressão que teriam invadido meu apartamento para brigar no meio da sala.
Desde que haviam deixado o apartamento, voltei a ouvir meu próprio silêncio.
Abaixo desse imóvel vago, uma velha com silhueta de um mamute atarracado, cabelos cacheados, brancos, passos arrastados, vagava vestindo um bermudão e um gigantesco e antigo sutiã. Dentro de casa, ela nunca usava uma blusa, ou camisa, ou qualquer coisa que me anistiasse daquela visão bisonha. Ela se esparramava num sofá surrado. Nele, alimentava suas artrites, esgrimando uma repetitiva e complexa coreografia com um par de agulhas de tricô, donde, algumas vezes, saíam casacos, luvas, gorros e tapetes.
Acima do VENDE-SE, só dava para perceber uma luz palidamente amarelada de uma lâmpada de poucas velas. Vez por outra, é que se percebia uma sombra, que confirmava estar habitado.
Nada muda nessa paisagem.
Na verdade, a queixa e o tédio, era porque nada mudava em minha vida.
Tomei um banho.
Despedi-me daquele 20 de maio e fui dormir.
Entrei e, de imediato, uma corrente de ar que vinha da janela aberta, tomou a maçaneta de minha mão direita e bateu a porta fazendo o barulho ecoar pelos corredores do prédio.
Merda!, pensei.
Os vizinhos não precisavam participar de minha rotina, muito menos do horário em que estava chegando.
Minha relação com eles sempre foi cuidadosamente calculada, no limite que restringe entre a manutenção de sua privacidade e ser educado. Tinham pouco a me oferecer. Nos raros esbarrões que ocasionalmente aconteciam, principalmente no elevador, na hora de ir para o trabalho, a única pauta que arriscavam eram mambembes previsões meteorológicas que – invariavelmente, ao longo do dia – se mostrariam equivocadas.
Meu apartamento era pequeno. Suíte, sala geminada à uma cozinha americana, separados por uma bancada que servia de mesa de jantar. Também, tinha uma pequena área com uma máquina de lavar que, de tão autônoma, saía para passear, sempre que sua carga excedia aos 6kg descritos no manual. Às vezes, chegava a pensar que ela iria pedir as contas e sair pela porta, procurar os direitos trabalhistas de tantos anos – mal remunerados - lavando, enxaguando e centrifugando.
Dei a sorte de conseguir reverter um minúsculo banheiro de empregada, para um lavabo, afim de que, minhas visitas não tivessem que invadir a privacidade de meu quarto para usar o banheiro.
Por outro lado, tive azar de não ter uma varanda. Queria um mínimo espaço onde pudesse dependurar uma rede para, horizontalmente, ler um bom livro e contemplar uma nesga que me sobrou da visão da mata atlântica, espremida entre dois prédios.
A mobília era somente a necessária para não amontoar o ambiente.
Na sala: sofá, hack para tv e dvd, uma planta da felicidade dada por minha irmã e um computador próximo à janela. Mesa de centro, era um luxo que a logística decorativa não permitia. Quadros e painéis de fotografia (um hobby que desde a adolescência me acompanhava) davam cores e vida na estrutura vertical da planta, sempre à altura de meus olhos.
Cheguei com a boca seca, conseqüente da desidratação que algumas doses de vodka, ingeridas no tradicional happy hour de sexta, com os amigos do trabalho, promoveu em minha garganta. Fui à geladeira pegar uma água gelada e andei até a janela para beber.
A rua em que morava era tranqüila e estreita a ponto de ter a visão do prédio em frente, tão próximo quanto à porta de meu vizinho na outra ponta do corredor. No entanto, aos fins de semana, a rua se transformava numa avenida, ante o fluxo de carros que circulavam, tentando fugir dos engarrafamentos das principais ruas paralelas da badalada zona sul em que morava.
Da janela, ví a mesma a imagem, que de tão estática, lembrava uma fotografia pálida, patética, emoldurada pelo alumínio da esquadria entreaberta para arejar o ambiente, o suficiente para bater a porta, como acabara de acontecer. A minha frente e a mesma altura de meu apartamento, havia um que estava vazio, com uma placa de VENDE-SE já desbotada pelo prazo em que estava fixada, refém da ação de vários sóis e chuvas, que vieram ao longo de 5 meses. Lembrei-me da família que morava nesse imóvel.
Pessoas barulhentas.
Um casal com dois filhos.
Duas pestes.
Crianças que serviriam como eficazes garotos propagandas para campanhas de vasectomia ou qualquer outra forma de controle de natalidade, de tão desagradáveis que eram. As gritarias, brigas e discussões em elevados decibéis, altas horas da madrugada, dava impressão que teriam invadido meu apartamento para brigar no meio da sala.
Desde que haviam deixado o apartamento, voltei a ouvir meu próprio silêncio.
Abaixo desse imóvel vago, uma velha com silhueta de um mamute atarracado, cabelos cacheados, brancos, passos arrastados, vagava vestindo um bermudão e um gigantesco e antigo sutiã. Dentro de casa, ela nunca usava uma blusa, ou camisa, ou qualquer coisa que me anistiasse daquela visão bisonha. Ela se esparramava num sofá surrado. Nele, alimentava suas artrites, esgrimando uma repetitiva e complexa coreografia com um par de agulhas de tricô, donde, algumas vezes, saíam casacos, luvas, gorros e tapetes.
Acima do VENDE-SE, só dava para perceber uma luz palidamente amarelada de uma lâmpada de poucas velas. Vez por outra, é que se percebia uma sombra, que confirmava estar habitado.
Nada muda nessa paisagem.
Na verdade, a queixa e o tédio, era porque nada mudava em minha vida.
Tomei um banho.
Despedi-me daquele 20 de maio e fui dormir.

3 comentários:
Trouxe a noveleta pra cá??
Pelo visto cortou os detalhes picantes...
A narrativa já era ótima e em primeira pessoa ficou melhor ainda.
Parabéns!
Beijao!
P.S.: A foto tb tá um espetáculo!!!
Sempre fui curiosa em saber o que há do outro lado, tudo tem dois lados não é mesmo? Não vejo a hora de ler (e ver)o segundo.
Ass: Lolita
ps: já tive msn, não tenho mais.
Oi Marcos, uma curiosidade... vai demorar muito pro segundo capítulo?
espero que não :)
sucesso pra vc!
Ass: Lolita
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