Seria um dia normal, se ali, não cessasse minha existência.
Após mais um dia exaustivo de trabalho, estava sentado num dos poucos bancos vagos do ônibus, a caminho de casa. Já planejava meu futuro imediato – tomar um banho; beijar meu filho; dormir um pouco.
De repente, um estampido seco e uma dor no coração. Só que, dessa vez, longe daquelas promovidas por amores desfeitos.
Após mais um dia exaustivo de trabalho, estava sentado num dos poucos bancos vagos do ônibus, a caminho de casa. Já planejava meu futuro imediato – tomar um banho; beijar meu filho; dormir um pouco.
De repente, um estampido seco e uma dor no coração. Só que, dessa vez, longe daquelas promovidas por amores desfeitos.
Era mais aguda.
Minha camisa encharcou de um suor denso e rubro, acompanhado de um gosto amargo na boca.
Dizem que, quando próximo à hora da morte, a vida da gente passa diante dos nossos olhos.
Não vi nada.
O medo de constatar o óbvio me fez optar por manter meus olhos cerrados.
No entanto, todos os sons possíveis, passaram por meus ouvidos: gritos, lamúrias, risos (???), sirenes, carros, silêncio.
O destino havia conjugado vários fatores para me vitimar naquele momento.
... se tivesse passado alguns minutos antes, ou alguns minutos depois.
... tivesse eu sentado em outro banco.
... quem me dera ter perdido aquele ônibus. Situação que tantas vezes ocorreu e eu praguejei esse “azar”.
Os consultores de segurança pública – personagens tão evidentes nesses dias de violência que vivemos, (ou que eu vivi) – costumam dizer que, a mais fina espessura de uma janela já constitui o risco de desviar a trajetória precisa de um projétil disparado por um sniper contra a cabeça de um seqüestrador. Não chamem o souvernir dessa guerrilha urbana, que agora se alojou em meu coração enfraquecido, de bala-perdida.
Além desse termo ter virado lugar comum, lugar comum tem se tornado os corpos dos cidadãos que, como eu, jazem o desfecho desses projeteis.
Se quiserem batizá-la, chamem-na de bala teleguiada, ante a precisão com que mudou de trajetória por diversas vezes, passando por lataria, bancos e outros obstáculos, tendo como mira final meu peito.
Minha camisa encharcou de um suor denso e rubro, acompanhado de um gosto amargo na boca.
Dizem que, quando próximo à hora da morte, a vida da gente passa diante dos nossos olhos.
Não vi nada.
O medo de constatar o óbvio me fez optar por manter meus olhos cerrados.
No entanto, todos os sons possíveis, passaram por meus ouvidos: gritos, lamúrias, risos (???), sirenes, carros, silêncio.
O destino havia conjugado vários fatores para me vitimar naquele momento.
... se tivesse passado alguns minutos antes, ou alguns minutos depois.
... tivesse eu sentado em outro banco.
... quem me dera ter perdido aquele ônibus. Situação que tantas vezes ocorreu e eu praguejei esse “azar”.
Os consultores de segurança pública – personagens tão evidentes nesses dias de violência que vivemos, (ou que eu vivi) – costumam dizer que, a mais fina espessura de uma janela já constitui o risco de desviar a trajetória precisa de um projétil disparado por um sniper contra a cabeça de um seqüestrador. Não chamem o souvernir dessa guerrilha urbana, que agora se alojou em meu coração enfraquecido, de bala-perdida.
Além desse termo ter virado lugar comum, lugar comum tem se tornado os corpos dos cidadãos que, como eu, jazem o desfecho desses projeteis.
Se quiserem batizá-la, chamem-na de bala teleguiada, ante a precisão com que mudou de trajetória por diversas vezes, passando por lataria, bancos e outros obstáculos, tendo como mira final meu peito.
Não quero ser celebridade nesse momento. Abdico de meus 15 minutos de fama mas, se os noticiários que, como corvos, pretenderem reportar minha morte, ilustrando a matéria com uma foto minha, quando vivo, que selecione uma foto em que eu esteja feliz.
Colorida, preferencialmente.
Nos casos similares, que acompanhei em vida, as fotos usadas pela mídia, retratava seu reféns com uma apatia tão grande, que parecia já prever seu fim trágico.
Por favor, não se atrevam a escrever a meu respeito, banalizando minha história, como se eu tivesse reencarnado numa estatística social.
Estatísticas são números.
... e números são frios instrumentos de uma ciência exata.
Ao contrário, minha vida foi repleta de experiências inexatas, da qual sentirei saudade.
Colorida, preferencialmente.
Nos casos similares, que acompanhei em vida, as fotos usadas pela mídia, retratava seu reféns com uma apatia tão grande, que parecia já prever seu fim trágico.
Por favor, não se atrevam a escrever a meu respeito, banalizando minha história, como se eu tivesse reencarnado numa estatística social.
Estatísticas são números.
... e números são frios instrumentos de uma ciência exata.
Ao contrário, minha vida foi repleta de experiências inexatas, da qual sentirei saudade.
Alguns dirão que morri jovem, no pleno gozo de meus 40 anos.
Vivi o que pude.
O quanto me foi permitindo, em algumas vezes, indo mais além.
Como epílogo de meu testamento, peço aos fiéis amigos que tive, que montem campana ao redor de meu filho, atendendo às suas carências e – periodicamente – revivam a lembrança de meu infante - das imagens que se tornarão turvas e empalidecidas pela erosão que o tempo promove.
Exagerem na tinta que irá fantasiar boas recordações a meu respeito.
Certa feita, li no prefácio de um livro que, entre a vida de um biografado e o mito - publique-se o mito.
Façam isso em minha memória.
Por fim, doem meus órgãos, pois já não me servem mais.
Queimem meu corpo.
Rezem minha alma.
Brindem meu passado e torçam por meu futuro.
Vivi o que pude.
O quanto me foi permitindo, em algumas vezes, indo mais além.
Como epílogo de meu testamento, peço aos fiéis amigos que tive, que montem campana ao redor de meu filho, atendendo às suas carências e – periodicamente – revivam a lembrança de meu infante - das imagens que se tornarão turvas e empalidecidas pela erosão que o tempo promove.
Exagerem na tinta que irá fantasiar boas recordações a meu respeito.
Certa feita, li no prefácio de um livro que, entre a vida de um biografado e o mito - publique-se o mito.
Façam isso em minha memória.
Por fim, doem meus órgãos, pois já não me servem mais.
Queimem meu corpo.
Rezem minha alma.
Brindem meu passado e torçam por meu futuro.

Um comentário:
Percebo que você realmente não me conhece pois errou feio quanto a minha opinião sobre texto. Ao invés de não gostar, como você imaginou, adorei!
Adorei a idéia de tentar capturar esse instante que na maioria das vezes não deixamos ao menos que passe pelas nossas cabeças; a sensação de desespero, da minha parte, me colocando no lugar do personagem e constatando que não vivi tudo o que deveria, e o alívio por não ser comigo e ainda dar tempo para rever a minha vida; e a serenidade de alguém que já aceitou um fato quando nada mais há para ser feito.
Gosto de temas que causam desconforto, estranheza, que façam pensar, que mexam nas feridas mas que nem por isso deixam de ter sua poesia.
Claro que isso é apenas uma opinião pessoal sem conhecimento teórico algum além das aulas de português da época de colégio e da literatura que eu, felizmente , aprendi a ter o prazer de consumir! ;)
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