quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Dissecando - Muito além do jardim



Back-Stage

Ficha Técnica do Filme
TÍTULO ORIGINAL: Being There / Muito Além do Jardim (1979).
ELENCO: Peter Sellers, Shirley MacLaine, Melvyn Douglas.
DIREÇÃO: Hal Ashby, baseado no romance de Jerzy Kosinski (1933 – 1951).

Para comentar o filme Muito Além do Jardim, é mister traçar um paralelo com a vida de seu autor. Batizado como Jerzy Nitodem Lewintopf, em Lodz/Polônia, Kosinski – herdeiro de uma família de intelectuais judeus seculares – pode preservar sua existência, quando aos 9 anos de idade, seu pai criou uma nova identidade para sobreviver ao Holocausto. Tal fato, foi descrito com metáforas, em seu primeiro romance “Pássaro Pintado” (uma lenda Polaca medieval que invoca o terror sofrido por um milhão e meio de crianças judias assassinadas) em que um corvo capturado é pintado e, lançado de volta aos seus semelhantes é atacado e morto por ser diferente. Condenado pela mídia por sua opção sexual, atitudes megalômanas e, denúncias de fraude de direitos autorais e plágio, esse maldito, teve uma razoável anistia da crítica, pelas autoria de suas obras.Até seu suicídio, aos 58 anos, sobreviveu às críticas, Holocausto e ao massacre ocorrido na casa de Sharon Tate, promovido pelo fanático Manson, tornando-se imortal quando da filmagem de seu best seller Being There.Uma curiosidade a respeito do filme, é que, enquanto os créditos passam ao término do filme, são mostrados as falhas de gravação, da cena em que Chance tenta retransmitir o recado para Raphael. Essa estratégia de mostrar o back stage, tão comum nas produções atuais, deixou o ator Peter Sellers furioso com o diretor, por “quebrar o feitiço do filme”.



O Filme



Após a morte de seu patrão (Joe), Chance – o jardineiro – se vê obrigado a deixar a casa. Sem saber para onde ir e limitado por só conhecer o mundo exterior através das imagens virtuais das diversas televisões espalhadas pelos cômodos da casa, inicia uma odisséia ao deparar-se com o mundo real, levando seu inseparável controle remoto da televisão.Neste corte epistemológico de sua vida, destaca-se a música “Sprach Zarathrustra” no arranjo anos 70 de Eumir Deodato, por ser um hino de revolução originário do filme 2001, uma odisséia no espaço.A exclusão da minoria negras na estética dos elencos televisivos, tem sua crítica pontuada quando Chance pede o almoço à uma negra que passa pela rua, por sua semelhança racial com a mulher que durante os anos de sua vida, servia suas refeições. (A mesma referência se dá quando Chance deduz que o enfermeiro que o atende na mansão dos Rand – por ser negro – seria o Raphael a quem ele deveria retransmitir o recado de uns marginais que ele encontra na rua.)Ao se deparar com a hostilidade de jovens delinqüentes de rua, Chance lança mão de seu controle remoto para mudar o quadro em que se encontra e repara que não tem esse poder.Quando Chance se vê num aparelho de TV ligado na vitrine de uma loja, conectado à uma câmera filmadora, há uma curiosidade seguido de pequeno desapontamento ao perceber que as imagens transmitidas pela TV não são totalmente reais, dada a inversão de imagem (lado direito pelo esquerdo).Atropelado acidentalmente, é socorrido por Eve Rand, que o leva para sua mansão, afim de ser examinado pelos médicos que tratam de seu moribundo marido - Benjamim Rand.No caminho, por ser a primeira vez que anda de carro, compara a dinâmica das imagens que passam pela janela, às apresentadas nas televisões. Ante os cuidados que recebe, acaba cativando o casal que o mantém como hóspede e confidente, ainda que, por entender mal a pronúncia de seu nome Chance the gardener (o jardineiro) acredita ser Chauncy Gardener, um aristocrata falido.



Sendo Ben Rand, fundador da Corporação First América e conselheiro do Presidente dos Estados Unidos, Chauncy tem acesso às decisões políticas e começa a participar da alta roda social norte americana. Ingênuo por sua formação, fala de seu ofício de jardinagem que acaba sendo interpretado erroneamente, como opiniões metafóricas a respeito das diretrizes políticas econômicas do País.Ainda que analfabeto, ganha notoriedade após ser citado pelo Presidente em seu discurso oficial.Como resultado de sua visibilidade, é procurado por diversas pessoas dos meios de comunicação e apresenta, ainda que não saiba, uma ameaça à re-candidatura do Presidente. Temeroso, o presidente aciona as agências de inteligência e segurança nacional em vão, afim de saber mais sobre sua vida de seu oponente. Por ter sido criado na casa de seu antigo patrão, nunca teve nenhum documento e, conseqüentemente, nenhum registro de sua existência, intrigando ainda mais a Casa Branca.Em meio a isso, Chauncy é assediado por Eve Rand, com o consenso de seu marido, que acredita estar deixando-a em boas mãos.Sucumbindo à sua enfermidade, Benjamim Rand morre e, durante seu velório, há uma ampla articulação de seus sócios – à revelia de Chauncy - em lançá-lo como sucessor do Presidente, enquanto Chauncy, caminha por entre a vegetação do cemitério no outono até um lago, por onde anda sobre às águas, dada a leveza de sua bondade.A dicotomia traçada na análise do filme, dá-se à: alguns acreditam tratar-se de uma crítica à influência da Tv sobre a vida das pessoas, enquanto outros pensam ser uma honraria à cultura televisiva, posto que, o personagem só consegue sobreviver graças às percepções que a televisão lhe passou no decorrer de sua vida. Esse conceito é defendido através da fala do personagem ao declarar “Eu gosto de assistir” e “Não leio jornal. Vejo TV”.



A a experiência do personagem principal (Chance) com a realidade, nas duas fases de sua vida: a primeira fase refere-se à uma vida metódica e patética nos limites da casa em que viveu até então. Fora seu ofício de jardineiro, só tinha impressão da vida externa, ante a estética que a programação televisiva o apresentava. Na segunda fase representa seu renascimento, quando percebe que os gestuais e cotidiano apresentado na Tv, não condiz com o mundo real, tendo que promover uma adaptação e contar com a sorte que garante a sua existência graças à interpretação que o mundo externo dá à sua postura.mais, pessoas assim no cotidiano.Sobre as imagens do filme: ao longo da descrição do filme que teci, cito algumas passagens que servem como observações a respeito da imagens do filme mas, marco a idéia principal passada na imagem de Chance andando pelo canteiro central de uma movimentada avenida com fluxo intenso de veículos em ambos os sentidos. Tal alusão deixa clara a idéia de um ser ímpar ilhado na cidade (sociedade).A relação de Chance com a natureza e com a sociedade. Além da pertinência das interpretações metafóricas de seus cuidados com a natureza, fica claro o mesmo zelo casual que Chance tem, perante as pessoas que o cercam. Há muito que se comparar esse filme, com outro sucesso, lançado anos depois: Forrest Gump, filme de situações onde uma personagem participa - casualmente - dos principais fatos do país e cativa ao espectador por sua ingenuidade.



trabalho de Estudo da Imagem, originalmente apresentado em 1999

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