domingo, 26 de outubro de 2008

UMA TV* DOENTE, PARA UMA SOCIEDADE ENFERMA.


Há momentos em que os fatos surgem e dá uma vontade de correr pra cá e escrever sobre eles, o quanto antes.
Porém, cada vez mais, é preciso segurar o ímpeto, para não cair nas graças (ou desgraças) do estado febril que as emoções provocam ou nas ilusões, cada vez mais fora de foco, que os veículos de informações noticiam.
Recentemente, mais um boçal que vive de querer viver o que não tem, seja grana ou alguém, tornou público seu dia de fúria.
A princípio, uma pessoa sem histórico de violência que, por capricho, paixão, ou inércia-mental, resolveu manter em cárcere privado sua ex namorada e uma amiga como refém.
No começo, seria pauta apenas para programas sensacionalistas que chafurdam o mundo cão para trazer à mesa as vísceras de qualquer ser em agonia para deleite da morbidade comum aos homens.
Mas o caso tomou dimensões e caminhos que fugiu ao controle da segurança estatal, deflagrando uma ação estapafúrdia que culminou no ferimento - sem gravidade - de uma jovem de 15 anos, a morte da outra de mesma idade e o criminoso preso.
Quem pensa que a história parou por aí, ... engana-se.
A família da menina morta veio de Alagoas, um maravilhoso estado da federação com mulheres e praias lindas, mas cuja sociedade promove alguns folclores incríveis.
Nada.
Nenhuma história que acontece em Alagoas (ou se inicia lá), termina na obviedade de seu prefácio.
Há sempre um desenrolar que, nem Agatha Christie, Dashiell Hammett ou Rudolph Erich Raspe, com seu Barão de Münchhausen, seriam capaz de supor. (vide texto – FÁBULA ALAGOANA – na seqüência).
Ao que se constata, o pai da jovem que teve um mal súbito, no decorrer das negociações, foi identificado quando sua imagem foi ao ar, como um foragido da justiça alagoana. Já fora policial e – supostamente – participou de uma milícia fardada que fazia justiça com as próprias mãos, coldre e armas.
Teria em seu currículo o assassinato de sua ex esposa e do irmão do ex governador do estado, através da contratação de seus hediondos serviços autônomos.
Já se projeta – inclusive – a possibilidade delirante do assassino (que no início desse texto não tinha um histórico de violência) integrar uma nova sucursal homicida, sitiada em santo andré.
...
Por outro lado, programas vespertinos que se banqueteiam com a miséria humana viram cair em seus colos, pautas já tabuladas que renderão assunto por largas semanas.
Em um desses, capitaneado por uma jornalista que fez sua carreira calcada em trazer à tona os podres da vida particular de algumas celebridades, dividindo o palco com um psiquiatra que, tem como prefixo de toda e qualquer fala, já quase virando um bordão – não sei se é ético ou não, mas...
Bem, sr. doutor, se o sr. não sabe se é ético ou não, cabe-lhe voltar ao mundo acadêmico e prestar bastante atenção à cadeira de ética, antes de vir à mídia se pronunciar.
Na sua última prescrição, sugeriu – caso ético fosse – de ser trocado pela refém.
Isso, enquanto a sua colega de picadeiro, conversava com o seqüestrador ao telefone, o posicionando como um bom rapaz, apenas acometido de um desequilíbrio momentâneo, decorrente de um entrevero amoroso, provavelmente, atrapalhando as negociações tramadas entre o seqüestrador e a naturalmente desqualificada polícia.
Obviamente, para eles, o afã pelos índices de audiência é superlativo em relação ao seu altruísmo.
Freqüentemente, interrompiam a matéria para anunciar um merchandising. Até aí, nada de mais. Sem hipocrisia, sabemos que a programação subexiste por essa estratégia mercadológica, porém, sempre que ia anunciar um produto, prevenia – agora, vamos falar de algo importante... (uma câmera digital, uma iogurteira, um forno elétrico, etc.)
Ou, quando variava o texto – agora, vamos falar de uma coisa – REALMENTE – importante (a mesma câmera, a mesma iogurteira, etc.)
Peraí!
Como assim?
Então quer dizer que, tudo que havia sido reportado antes na matéria, além do próprio fato em si, não era importante?
Um absurto!
Isso mesmo. Você não leu errado, nem tão pouco eu escrevi errado. Me valho do neologismo pra descrever de forma simplista esse cenário: um absurdo ... um surto desses ‘profissionais’ da televisão que, por incompetência, falta de sensibilidade ou ignorância, desmerecem a própria matéria ou boicotam suas próprias carreiras.

* “um dos mais constantes hábitos da humanidade neste século: ver televisão; passar horas a fio fitando diretamente um eletrodoméstico que parece ser imprescindível, inclusive na opinião do Supremo Tribunal de Justiça brasileiro, que decidiu ser o aparelho de televisão um bem que não pode ser penhorado, chegando a afirmar que: “[...] O brasileiro não vive sem a televisão”.
Bezerra, Wagner. O manual do telespectador insatisfeito, summus editorial, p.17, 1999.
Bastos, Geise e Lemos, Renato. Ninguém tira a TV do brasileiro, Jornal do Brasil, p.5, 6/7/1997, Caderno B.

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