domingo, 9 de novembro de 2008

2º Capítulo - Jogo dos sete-erros






Scrassssshhh...
Acordo com a impressão de ter ouvido uma freada de carro, seguida de uma colisão. Olho para o relógio ao lado da cama:
- 3h40m
Sem saber se era sonho ou realidade, julguei que nenhum fato valeria irromper meu sono para investigar na janela o que realmente aconteceu, até porque, invariavelmente, minha rua era cenário de colisões e atropelamentos.
Pisquei os olhos e novamente: 7h
Agora sim, hora de me levantar.
Um gosto desagradável na boca, como se tivesse bebido um coquetel de cabo-de-guarda-chuva ou tivesse preso na fenda entre os dentes, uma guimba de cigarro, tal qual uma lasca de carne.
Escovo os dentes. Disfarço alguma baderna remanescente no meu quarto. E vou para a praia.
Tenho por hábito chegar cedo para dar uma caminhada no calçadão.
Levando a vida levemente desregrada como eu, seria hipocrisia se a caminhada atendesse alguma prescrição médica desses doutores simpatizantes do taliban, que alinham suas teorias de vida saudável à tudo que a tornaria patética.
Caminho, para observar a sociedade e garimpar em suas personagens, assuntos para meu projeto de um livro de crônicas, a qual já estou – quase - convencido que nunca será publicado.
Findada a caminhada, resgato meu kit de sobrevivência, que havia depositado sob a custódia do quiosque sol&mar, cujo proprietário era um amigo de infância.
Fiel zelador de meus apetrechos de praia (um maço de lucky strike vermelho, isqueiro zippo, livro, chaves de casa e uma reserva necessária para financiar umas doses de caipirinha para relaxar), Zéu sempre me saudava, bradando meu apelido que me acompanha desde criança:
- GUÉL!
E, com freqüência, contava ao funcionário de seu estabelecimento – aquele que estivesse mais próximo - uma enrascada em que nos metemos três décadas antes, quando ainda estudávamos num colégio de padres, ali no bairro.
Repetidas vezes, calhava do funcionário já ter decorado a história de tanto ouvi-la, mas fingia ineditismo, para não perder o ‘amigo’ ou o emprego.
Apesar da situação me constranger, sabia que Zéu só queria agradar e reavivar o saudosismo daquela que – acho – ser a única lembrança que tinha da infância.
- Não esqueça de passar por aqui, antes de ir embora...
Desço para a areia e procuro um lote que me resta, numa praia lotada, em que consiga me acomodar.
Como uma capota de um conversível, tombo os óculos de sol que estava sobre a cabeça, mais que uma proteção oftálmica, para disfarçar os olhares lançados contra as sereias que iam e voltava do mar. Algumas delas, acompanhadas de joviais tritões bombados e facilmente irritadiços por anos de hormônios projetados contra seus músculos, para moldar sua forma. Seria ótimo para minha sobrevivência, não levantar nenhuma evidência que pudesse alimentar o ciúme e a cólera desses atletas-de-seringas.
Dei azar no livro selecionado.
Gosto de ler biografias, política, ensaios, crônicas e contos eróticos. Dessa vez, escolhi na estante um livro recomendado por uma amiga do trabalho, como sendo um excelente relato fetichista de um escritor capixaba, só que, me deparei com um texto que mais parecia um livro de anatomia de qualquer aluno residente de medicina.
Fatiava a mulher e as sensações, descrevendo contrações nos rins, gônodas, espasmos pélvicos ... longe das excitantes neuroses eróticas-suburbanas de Nelson Rodrigues, ou do delicioso erotismo-clássico de Anais Nin.
Pelo menos, essa literatura acadêmica e broxante, me poupou de freqüentes idas ao mar, para arrefecer qualquer animação denunciada pelo traje adequado para o local e inadequado para a imaginação – a sunga. Além do que, a água estava gelada.
Desvencilhado e com êxito, do fardo que havia se tornado ler o livro até o fim, dou um único mergulho, para saudar Janaína, afro-orixá a quem rendo simpatia e gratidão.
Volto ao quiosque para quitar meus débitos de doses cavalares da mistura de limão, cachaça, gelo e açúcar e me despedir de Zéu, levando alguns luckys para qualquer estocar em casa, caso houvesse uma emergência.
... vai que acontece uma hecatombe e minha casamata precisasse se transformar num bunker ...
Bato a toalha nos pés, tirando o excesso de areia da praia, restando colada à pele, apenas àquelas fuligens de conchas triturada pelo tempo. Souvenir, que nunca consigo me livrar até a hora do banho.
Ao chegar em casa, sigo direto para o chuveiro.
Por conta da lombra que a praia castiga na carcaça, vou até a janela para fechar a cortina.
Precisava me refazer para a noite que se iniciaria dentre poucas horas.
De repente, percebo que algo na paisagem havia mudado.
Cansado demais para brincar de jogo dos sete erros com aquela imagem, deixei pra depois ... fui jiboiar um pouco.

2 comentários:

Ju Vasconcelos disse...

Amei Fleury! Aposto q alugaram o apê da frente... rsrsrs Estou ansiosa pelos próximos capítulos! Gde bjo

Ju Vasconcelos disse...

OBS: sempre fechando com chave de ouro... hehe Suas palavras são maravilhosas!